
Por que repetimos comportamentos que sabemos que nos fazem mal?
7 octobre 2026
Doutora em Biotecnologia | Bióloga | Pesquisadora | Professora | Analista de Perfil Comportamental | Especialista em desenvolvimento humano e inteligência emocional
Cuidar de si não é apenas uma prática relacionada ao corpo. É também aprender a reconhecer emoções, compreender padrões de comportamento, tomar decisões mais conscientes e construir relações mais saudáveis consigo e com os outros. Nesse contexto, a aproximação entre neurociência, inteligência emocional e análise do perfil comportamental oferece uma perspectiva interdisciplinar para compreender como pensamentos, emoções, experiências e contextos influenciam nossas escolhas e nosso bem-estar. Este artigo discute o autocuidado a partir de uma perspectiva neurocientífica e socioemocional, destacando a importância da autorregulação, da autoconsciência e da plasticidade cerebral para o desenvolvimento humano. Defende-se que conhecer o próprio funcionamento emocional e comportamental não significa colocar pessoas em categorias rígidas, mas ampliar a capacidade de perceber padrões, fazer escolhas e desenvolver estratégias mais adaptativas. A proposta dialoga com os princípios do Fórum Internacional SABE — Saúde, Autocuidado e Bem-Estar — ao compreender saúde e qualidade de vida como fenômenos multidimensionais, construídos na relação entre indivíduo, ambiente, vínculos e sociedade.
Palavras-chave: Neurociência; Inteligência emocional; Perfil comportamental; Autocuidado; Bem-estar; Autorregulação; Desenvolvimento humano.
Vivemos em uma sociedade que frequentemente nos ensina a cuidar de quase tudo, mas nem sempre nos ensina a cuidar de nós mesmos.
Cuidamos das demandas profissionais, das responsabilidades familiares, das expectativas sociais, das metas, dos resultados e das inúmeras urgências do cotidiano. Entretanto, uma pergunta permanece necessária: quem está cuidando da pessoa que sustenta todas essas responsabilidades?
O autocuidado, nessa perspectiva, não deveria ser compreendido apenas como um conjunto de hábitos relacionados à alimentação, à atividade física, ao sono ou aos cuidados com o corpo. Essas dimensões são fundamentais, mas existe outra dimensão igualmente importante: a capacidade de reconhecer o que sentimos, compreender como reagimos, perceber nossos limites e construir escolhas coerentes com aquilo que precisamos para viver melhor.
É nesse ponto que a neurociência encontra a inteligência emocional e o estudo do comportamento. As pesquisas contemporâneas vêm mostrando que a regulação das emoções envolve uma complexa interação entre regiões cerebrais relacionadas ao processamento emocional, ao controle cognitivo, à tomada de decisão e à percepção dos estados internos. Revisões recentes apontam, por exemplo, para a participação integrada de estruturas como córtex pré-frontal, amígdala, córtex cingulado e ínsula nos processos relacionados à regulação emocional e à inteligência emocional.
Isso nos conduz a uma mudança importante de perspectiva: não somos obrigados a permanecer para sempre nos mesmos padrões de reação.
O cérebro humano possui plasticidade. Experiências, aprendizagem, relações, hábitos e contextos participam continuamente da construção e da reorganização de nossos modos de perceber, interpretar e responder ao mundo. Autoconhecimento, portanto, não é apenas uma questão filosófica.
Também pode ser compreendido como uma competência para a vida.
Durante muito tempo, algumas interpretações simplificadas popularizaram uma espécie de oposição entre razão e emoção: como se pensar fosse uma função nobre do cérebro e sentir fosse um obstáculo que precisasse ser controlado. A neurociência contemporânea apresenta um cenário muito mais complexo. Emoção e cognição não funcionam como sistemas completamente separados. Nossas emoções participam da atenção, da memória, da avaliação de situações, da tomada de decisões e das relações sociais.
A amígdala, por exemplo, está fortemente relacionada ao processamento de informações emocionalmente relevantes. O córtex pré-frontal participa de processos de controle cognitivo e de regulação. A ínsula está envolvida, entre outras funções, na percepção dos estados internos do organismo. O córtex cingulado participa da integração de aspectos cognitivos e emocionais.
O funcionamento saudável não depende, portanto, de eliminar as emoções.
Depende de aprender a reconhecê-las e responder a elas de maneira mais consciente e adequada ao contexto. Essa distinção é fundamental.
Sentir raiva não significa necessariamente agir com agressividade, Sentir medo não significa necessariamente desistir; Sentir tristeza não significa fracasso; Sentir ansiedade não significa incapacidade. Uma emoção é uma experiência, o comportamento que construímos a partir dela envolve outros processos.
Entre o estímulo e a resposta, existe uma oportunidade de aprendizagem.
É nesse espaço que a inteligência emocional se torna especialmente relevante.
A inteligência emocional pode ser compreendida, em diferentes modelos científicos, como um conjunto de capacidades relacionadas à percepção, compreensão, utilização e regulação das emoções. Mais do que simplesmente “controlar” sentimentos, trata-se de desenvolver uma relação mais consciente com eles.
Imagine uma pessoa diante de uma situação profissional de conflito. Uma primeira possibilidade é reagir imediatamente.
Outra é perceber:
“Estou irritado.”
Depois:
“O que exatamente provocou essa reação?”
E, finalmente:
“Qual resposta será mais coerente com aquilo que quero construir?”
Essa sequência aparentemente simples envolve competências sofisticadas de autoconsciência, regulação emocional, avaliação e tomada de decisão. Pesquisas recentes sobre os correlatos neurais da inteligência emocional indicam que esse fenômeno não pode ser reduzido a uma única área cerebral. Trata-se de uma construção complexa, sustentada por redes envolvidas na integração entre processos cognitivos, emocionais e sociais.
Da mesma maneira, a regulação emocional não deve ser confundida com repressão. Reprimir é negar ou esconder aquilo que sentimos. Regular é reconhecer, compreender e escolher como responder.
Essa diferença muda completamente a relação que estabelecemos conosco.
A análise de perfil comportamental pode contribuir para esse processo quando utilizada como ferramenta de autoconhecimento e desenvolvimento. Conhecer tendências comportamentais pode ajudar uma pessoa a perceber como costuma se comunicar, tomar decisões, lidar com mudanças, enfrentar conflitos, estabelecer prioridades ou responder a situações de pressão.
Mas existe um cuidado essencial: um perfil comportamental não deve ser transformado em uma sentença sobre quem somos.
Nenhum ser humano cabe completamente em uma classificação. Somos influenciados por nossa história, cultura, educação, relações, experiências, contexto social, estado emocional e circunstâncias.
Por isso, uma leitura responsável do comportamento deve produzir perguntas, e não rótulos.
Em vez de:
“Eu sou assim.”
Podemos perguntar:
“Eu tenho apresentado esse padrão em quais situações?”
“Quando esse comportamento me ajuda?”
“Quando ele me limita?”
“O que acontece comigo quando estou sob pressão?”
“Quais estratégias posso desenvolver?”
Essa mudança aparentemente pequena transforma a análise comportamental em instrumento de desenvolvimento.
O objetivo não é descobrir uma “caixa” na qual devemos permanecer.
É compreender nossos padrões para ampliar nosso repertório.
Quando pensamos em autocuidado, frequentemente imaginamos ações externas: descansar, viajar, fazer exercícios, cuidar da alimentação ou reservar um tempo para lazer. Todas essas práticas podem ser importantes.
Mas existe um autocuidado menos visível: aprender a não abandonar a si mesmo nas situações difíceis.
Isso significa: reconhecer limites, Dizer não quando necessário, Perceber sinais de exaustão, Reavaliar relações, Solicitar ajuda, Organizar prioridades, Identificar pensamentos recorrentes, Reconhecer emoções, Reformular interpretações, Construir estratégias para lidar com situações difíceis, e, principalmente, compreender que pedir ajuda não representa fracasso.
A autorregulação emocional está relacionada justamente à capacidade de modular respostas emocionais de maneira adaptativa. Estudos recentes sobre neuroimagem apontam associações entre diferenças individuais na regulação emocional e a atividade de regiões relacionadas ao controle cognitivo, especialmente áreas do córtex pré-frontal, além da participação da amígdala em processos de reatividade e regulação emocional.
Isso reforça uma ideia importante para o autocuidado: cuidar da mente também envolve desenvolver habilidades.
Uma das ideias mais potentes da neurociência para o desenvolvimento humano é a plasticidade cerebral. O cérebro não é uma estrutura completamente estática: Aprendemos, Adaptamo-nos, Criamos novas associações, Fortalecemos determinadas redes por meio da experiência e Desenvolvemos habilidades.
Isso não significa que podemos simplesmente “pensar positivo” e transformar qualquer circunstância. A neuroplasticidade não é uma promessa de que tudo pode ser modificado pela força de vontade.
Existem fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais que influenciam profundamente o comportamento e o bem-estar. Mas reconhecer a plasticidade significa também reconhecer uma possibilidade: experiências e aprendizagens podem participar da transformação de nossos repertórios. Essa compreensão é particularmente importante quando falamos de inteligência emocional.
Aprender a reconhecer emoções, utilizar estratégias de reavaliação cognitiva, desenvolver habilidades sociais, aprimorar a comunicação e construir relações mais saudáveis são processos que podem ser desenvolvidos ao longo da vida. Não se trata de mudar quem somos. Trata-se de ampliar aquilo que somos capazes de fazer.
Outro ponto importante para o debate contemporâneo sobre saúde é compreender que bem-estar não significa viver permanentemente feliz.
A felicidade constante é uma expectativa irreal. A vida humana envolve perdas, conflitos, frustrações, mudanças, incertezas e períodos de sofrimento.
Uma concepção madura de bem-estar precisa incluir a capacidade de atravessar experiências difíceis sem perder completamente a conexão consigo mesmo, com outras pessoas e com aquilo que atribuímos como sentido à vida. Nesse sentido, a inteligência emocional não deveria ser apresentada como uma ferramenta para produzir pessoas permanentemente positivas.
Seu potencial está em favorecer maior consciência:
Consciência para perceber.
Consciência para interpretar.
Consciência para escolher.
Consciência para pedir ajuda.
Consciência para mudar.
Consciência também para aceitar aquilo que, naquele momento, não podemos modificar.
O autocuidado não deve ser utilizado para transferir exclusivamente para o indivíduo a responsabilidade por sua saúde e seu bem-estar. Esse é um ponto ético fundamental. Não podemos dizer a uma pessoa submetida permanentemente a condições de trabalho adoecedoras, desigualdades sociais, violência, discriminação ou ausência de acesso adequado aos serviços de saúde que seu problema será resolvido simplesmente aprendendo a “controlar suas emoções”.
O ser humano é inseparável de seu contexto. Por isso, falar de saúde, autocuidado e bem-estar também significa discutir relações, ambientes, políticas públicas, educação, trabalho, inclusão e qualidade de vida. A própria perspectiva do SABE propõe essa conexão entre diferentes saberes e atores sociais, articulando ciência, comunidade, práticas de cuidado, inovação e longevidade.
A saúde precisa ser compreendida como uma construção multidimensional. Cuidar de si é importante, mas construir ambientes nos quais as pessoas possam efetivamente cuidar de si também é responsabilidade coletiva.
É nesse ponto que a educação assume papel estratégico. Aprender sobre emoções não deveria ser uma competência exclusiva de quem procura ajuda depois que o sofrimento já se instalou.
A educação emocional pode começar antes:
Na infância.
Na adolescência.
Na formação profissional.
Nas universidades.
Nos espaços de trabalho.
Nas famílias.
Nas comunidades.
A UNESCO tem destacado a aprendizagem socioemocional como uma dimensão relevante para sistemas educacionais, relacionando competências como reconhecimento e manejo das emoções, empatia, relacionamentos e tomada de decisões responsáveis ao bem-estar e à transformação social.
Isso significa que educação emocional não é apenas ensinar alguém a “se sentir bem”.
É ensinar a viver com maior consciência de si e do outro.
É desenvolver responsabilidade.
É aprender a lidar com conflitos.
É reconhecer limites.
É compreender diferenças.
É construir relações.
É tomar decisões.
É cuidar.
E, sobretudo, é reconhecer que saúde mental, aprendizagem e relações humanas não podem ser tratadas como dimensões completamente separadas.
Quando o SABE propõe discutir longevidade, existe uma pergunta que merece ser colocada no centro: de que adianta viver mais se não aprendermos a viver melhor?
A longevidade saudável não pode ser reduzida ao número de anos vividos. Ela envolve autonomia, relações, propósito, participação social, saúde física, saúde emocional e capacidade de adaptação. Nesse contexto, desenvolver inteligência emocional ao longo da vida pode ser entendido como parte de uma educação permanente para o cuidado.
Conhecer-se aos 20 anos não significa conhecer-se definitivamente.
Aos 40, novas experiências modificam nossas prioridades.
Aos 60, outras perguntas podem surgir.
Aos 80, talvez a relação com tempo, memória, vínculos e propósito seja novamente transformada.
Somos seres em desenvolvimento. E essa talvez seja uma das maiores contribuições da neurociência para o debate sobre o bem-estar: o cérebro humano é profundamente marcado pela experiência.
Portanto, o cuidado também precisa acompanhar as diferentes fases da vida.
Existe ainda uma dimensão frequentemente esquecida quando falamos de autoconhecimento: somos seres relacionais. O cérebro humano é social.
Aprendemos observando e regulamos emoções também por meio das relações. Construímos identidade em contextos sociais.
O sentimento de pertencimento influencia nossa experiência de mundo. Por isso, autocuidado não deve significar isolamento. Às vezes, cuidar de si significa estabelecer limites. Em outras situações, significa permitir aproximação. Pode significar afastar-se de uma relação prejudicial. Mas também pode significar construir uma rede de apoio, pode significar conversar, pedir ajuda, Escutar e ser escutado. Nesse sentido, conexão também é uma forma de cuidado.
E talvez seja justamente essa uma das pontes mais bonitas entre neurociência e a proposta do SABE: compreender que saúde e bem-estar não são experiências exclusivamente individuais.
Talvez precisemos mudar a pergunta.
Em vez de perguntar apenas:
“O que devo fazer para cuidar de mim?”
podemos perguntar:
“O que preciso compreender sobre mim para cuidar melhor de mim?”
Essa mudança desloca o autocuidado de uma lista de tarefas para um processo de consciência. Conhecer o próprio perfil comportamental pode ajudar a identificar tendências.
A inteligência emocional pode ampliar a consciência sobre as emoções. A neurociência pode oferecer conhecimentos sobre os mecanismos envolvidos em cognição, emoção, aprendizagem e comportamento. A educação pode transformar conhecimento em competência. As relações podem oferecer pertencimento e suporte.
E o contexto social precisa criar condições para que o cuidado seja possível. Nenhuma dessas dimensões, isoladamente, é suficiente.
Juntas, entretanto, podem construir uma visão mais integral do ser humano.
O maior desafio do autocuidado talvez não seja encontrar mais uma técnica.
Talvez seja desenvolver uma relação mais consciente com quem somos.
Conhecer nossas emoções sem sermos dominados por elas.
Reconhecer nossos padrões sem sermos aprisionados por eles.
Compreender nossos limites sem transformar limites em desistência.
Desenvolver competências sem transformar o desenvolvimento pessoal em uma obrigação permanente de produtividade.
E aprender a pedir ajuda sem vergonha.
A neurociência nos mostra que emoção, cognição, comportamento e relações estão profundamente interligados. A inteligência emocional nos oferece caminhos para ampliar a consciência e a regulação das emoções. O estudo do perfil comportamental pode contribuir para reconhecer tendências e ampliar repertórios, desde que utilizado de forma ética, contextualizada e não determinista.
Mas existe algo ainda maior nessa discussão: O conhecimento só se transforma em cuidado quando produz escolhas mais conscientes.
E o cuidado individual alcança sua verdadeira dimensão quando também se transforma em cuidado com o outro e com o mundo.
É nesse ponto que os caminhos se encontram:
Ciência para compreender.
Conexão para compartilhar.
Inovação para transformar.
Autocuidado para sustentar.
Bem-estar para viver.
E longevidade para continuar aprendendo.
Talvez, no final, cuidar de si seja exatamente isso: aprender a escutar o próprio cérebro, acolher as próprias emoções, compreender os próprios padrões e escolher, todos os dias, caminhos que aproximem a pessoa que somos da pessoa que podemos nos tornar.
E talvez seja essa uma das perguntas mais importantes que podemos levar para o Fórum Internacional SABE:
não apenas “como viver mais?”, mas “como aprender a viver melhor — com mais consciência, conexão, saúde e sentido?”