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Cuidar na língua materna: as pontes que a imigração exige

Cuidar na língua materna: as pontes que a imigração exige

Por que conectar imigrantes a profissionais capacitados que falam o seu idioma é uma forma concreta de saúde, autocuidado e bem-estar

6 octobre 2026

Quem emigra leva consigo a formação, a experiência e os afetos, mas deixa para trás algo que só se percebe na falta: a facilidade de ser compreendido. No novo país, aprende-se a trabalhar, a estudar e a resolver a vida em outro idioma. Ainda assim, há momentos em que a segunda língua não alcança. Explicar uma dor, falar de um luto, descrever o cansaço, pedir orientação sobre um filho ou sobre o próprio futuro exige palavras que nascem na língua materna.

Vivo em Genebra desde 1999 e acompanho de perto a comunidade de língua portuguesa na Europa. O que observo é constante: muitas pessoas adiam o cuidado de que precisam. Não por falta de serviços, mas porque não conseguem se expressar com precisão, não conhecem o funcionamento do sistema local ou receiam não ser compreendidas em sua cultura e em seus valores. O resultado é o silêncio, o isolamento e, muitas vezes, um sofrimento que poderia ter sido acolhido mais cedo.

A língua materna não é apenas um meio de comunicação. É o lugar onde a pessoa pensa, sente e se reconhece. Quando o acompanhamento acontece nesse idioma, a escuta se torna mais fina, a confiança se estabelece com mais rapidez e a orientação recebida é de fato compreendida e seguida. Isso vale para a saúde física e mental, para a educação, para a vida financeira, para a carreira e para as relações familiares.

Existe, ao mesmo tempo, uma riqueza pouco visível: profissionais capacitados, formados no Brasil, em Portugal, na África lusófona e na própria Europa, que dominam a nossa língua e conhecem a realidade de quem vive entre dois mundos. Médicos, psicólogos, terapeutas, educadores, juristas, consultores. Muitos trabalham de forma isolada, sem que a comunidade saiba onde encontrá-los. De um lado, há quem precise de acompanhamento. Do outro, há quem esteja preparado para oferecê-lo. Falta a ponte.

Criar essa ponte é o trabalho a que me dedico. O Fórum Internacional SABE nasceu com esse propósito: reunir, em um mesmo espaço, profissionais qualificados e o público que busca orientação, com transmissão aberta e acessível a partir de qualquer país. A primeira edição, realizada de 1º de setembro a 5 de outubro de 2026, mostrou que a distância geográfica deixa de ser um obstáculo quando existe uma rede organizada e confiável.

Conectar não significa substituir os serviços do país de acolhimento, nem afastar o imigrante da integração. Significa oferecer um ponto de apoio para que ele se integre com mais segurança, compreenda melhor as suas escolhas e saiba a quem recorrer. Quem é bem acompanhado participa mais, adoece menos em silêncio e contribui com mais plenitude para a sociedade onde vive.

O que proponho é simples e exigente: que cada profissional capacitado de língua portuguesa seja visível e acessível, e que cada imigrante saiba que não precisa atravessar sozinho as fases difíceis da vida. Pontes não eliminam a distância. Tornam possível atravessá-la.

Linia Brandt, CEO e fundadora do Grupo ELB Network, idealizadora do Fórum Internacional SABE