
Amilton Conté começou a escrever aos 18 anos e só conseguiu publicar aos 40. Entre um marco e outro há vinte e dois anos de textos guardados, três países e uma travessia que começou em Bissau, passou por Portugal em 1999 e chegou ao Luxemburgo, onde vive há catorze anos. Nesse intervalo, a escrita não foi profissão nem projeto editorial: foi companhia, foi o lugar onde coube o que a vida de quem emigra costuma não ter tempo de elaborar.
É esse o ponto de encontro entre literatura e bem-estar. A palavra organiza. Quando alguém consegue nomear o que sente, o sentimento deixa de ser uma massa confusa e passa a ter contorno, começo e fim. A leitura oferece pausa, baixa o ritmo interno, melhora o sono e a concentração. A escrita oferece elaboração, e é por isso que há décadas se usa a escrita expressiva como recurso de apoio em processos de luto, adoecimento, ansiedade e recomeço. Nenhuma das duas substitui acompanhamento terapêutico profissional. Ambas ampliam o repertório de cuidado que cada pessoa tem à mão, todos os dias, sem custo.
Desde 2022, são oito obras publicadas, entre elas "As Mágoas que Magoam", "50 Vidas: Silêncio das Almas Perdidas", "Eu, o Poeta" e "Cartografia dos Afetos: Amor é um Ato Político". Só os títulos já anunciam o território: mágoa, silêncio, identidade e afeto. Em 2025, o autor recebeu o Prémio Literário Internacional Suisse Excellence e a homenagem por mérito do Prémio Afro Events Luxemburgo.
Neste encontro, Amilton Conté conversa sobre a literatura como prática de cuidado e sobre o que a poesia oferece a quem atravessa a distância, a espera e o recomeço. Uma conversa para quem lê, para quem escreve na gaveta e para quem ainda não descobriu que a palavra também cuida.