Conhecimento, autonomia e conexão como caminhos para o autocuidado e o bem-estar
Por Cleide Marinho
Administradora de formação, Educadora e Empreendedora, especialista em Gestão de Pessoas e Marketing e profissional em formação na área de Inteligência Artificial.
Quando pensamos em autocuidado, normalmente associamos o conceito à alimentação, à atividade física, ao descanso, à saúde mental ou à prevenção. Todas essas dimensões são fundamentais.
Mas existe uma dimensão do autocuidado que merece ser ampliada: a educação.
Aprender também é cuidar de si.
Essa afirmação ganha ainda mais relevância quando observamos a relação entre educação, autonomia e literacia em saúde. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que a literacia em saúde envolve a capacidade de acessar, compreender, avaliar e utilizar informações e serviços de forma a promover e manter a saúde e o bem-estar. A organização também destaca que a educação de qualidade e a aprendizagem ao longo da vida são elementos importantes para fortalecer essa capacidade.
Dessa perspectiva, educação não é apenas transmissão de conhecimento.
É construção de autonomia.
Ter acesso à informação é importante. Porém, informação, por si só, não garante transformação.
A transformação acontece quando conseguimos compreender aquilo que recebemos, avaliar possibilidades e utilizar o conhecimento para fazer escolhas.
É nesse processo que educação, autocuidado e bem-estar se encontram.
Uma pessoa que desenvolve conhecimento pode estar mais preparada para fazer perguntas, procurar ajuda, compreender orientações, reconhecer seus limites e participar de decisões que impactam sua própria vida.
A OMS, ao abordar o autocuidado, enfatiza justamente a capacidade de indivíduos, famílias e comunidades atuarem de maneira ativa na promoção e manutenção da própria saúde. A organização ressalta que o autocuidado não substitui os sistemas e profissionais de saúde, mas pode complementá-los dentro de um ambiente seguro e favorável.
Podemos pensar essa relação como uma jornada:
Essa perspectiva é especialmente relevante em uma sociedade na qual temos acesso a uma quantidade cada vez maior de informações, mas nem sempre desenvolvemos as ferramentas necessárias para interpretá-las.
Durante muito tempo, educação foi associada principalmente à preparação para o mercado de trabalho.
A formação profissional continua sendo essencial. Mas precisamos ampliar essa visão.
Precisamos aprender não apenas para trabalhar.
Precisamos aprender para viver.
Aprender a comunicar.
Aprender a estabelecer limites.
Aprender a conviver com as diferenças.
Aprender a utilizar a tecnologia.
Aprender a reconhecer informações confiáveis.
Aprender a pedir ajuda.
Aprender a lidar com mudanças.
Aprender a cuidar de nós mesmos e das pessoas ao nosso redor.
Essa perspectiva também dialoga com o OECD Learning Compass 2030, que propõe uma visão de educação voltada não apenas ao conhecimento e às competências, mas também à agência do indivíduo e ao bem-estar individual e coletivo. O modelo enfatiza a capacidade de navegar por contextos desconhecidos, fazer escolhas responsáveis e participar ativamente da construção do próprio futuro.
Educação, portanto, não deve preparar apenas para o mercado.
Deve preparar para a vida.
Essa relação torna-se ainda mais evidente quando observamos a realidade de pessoas que vivem fora de seu país de origem.
Migrar significa muito mais do que mudar de território.
Significa aprender novamente.
Novo idioma.
Novo sistema de saúde.
Novas instituições.
Novas regras.
Novos códigos culturais.
Novas formas de trabalhar e estabelecer relações.
Nesse contexto, aprender uma nova língua não representa apenas uma competência acadêmica ou profissional.
Pode representar autonomia.
Uma pessoa que consegue comunicar uma necessidade, compreender uma orientação, preencher um documento, procurar um serviço ou conversar com um profissional passa a ter maior capacidade de participar da sociedade em que vive.
A educação torna-se, assim, uma ponte entre a pessoa e o mundo.
E também uma ponte entre conhecimento e pertencimento.
Essa dimensão é especialmente importante quando falamos em literacia em saúde. A OMS destaca que ela não se limita à capacidade individual de ler informações, mas envolve também condições sociais e institucionais que permitem às pessoas encontrar, compreender, avaliar e utilizar informações de saúde.
Portanto, promover educação e literacia também significa trabalhar pela redução de desigualdades.
Bem-estar não significa ausência de dificuldades.
Significa também possuir recursos para enfrentar desafios, fazer escolhas e construir uma vida com mais equilíbrio e sentido.
Nesse contexto, a educação pode contribuir para o desenvolvimento de competências que fortalecem a confiança, a autonomia e a capacidade de adaptação.
Aprender algo novo pode representar uma conquista.
Dominar uma nova habilidade pode fortalecer a autoestima.
Compreender uma situação pode diminuir a insegurança.
Encontrar uma comunidade de aprendizagem pode combater o isolamento.
Ter acesso ao conhecimento pode abrir novas possibilidades.
Por isso, precisamos olhar para a educação não apenas como investimento profissional, mas também como investimento humano.
A perspectiva da OCDE sobre educação para 2030 reforça essa compreensão ao colocar o bem-estar e a agência dos indivíduos entre os elementos centrais para que as pessoas possam prosperar em um mundo complexo e em constante transformação.
A transformação tecnológica acrescenta uma nova dimensão a essa discussão.
Vivemos em um momento em que ferramentas de inteligência artificial conseguem produzir textos, responder perguntas, traduzir idiomas, analisar informações e apoiar processos de aprendizagem.
Diante desse cenário, surge uma questão fundamental:
Precisamos ensinar pensamento crítico.
Precisamos ensinar consciência.
Precisamos ensinar ética.
Precisamos ensinar comunicação.
Precisamos ensinar como avaliar informações.
Precisamos ensinar quando utilizar a tecnologia e quando questioná-la.
E, sobretudo, precisamos ensinar as pessoas a continuarem sendo protagonistas de suas próprias decisões.
A própria evolução das discussões internacionais sobre educação aponta para a necessidade de desenvolver não apenas conhecimento, mas também competências, valores, autonomia e capacidade de agir diante de contextos novos.
A tecnologia pode ampliar o acesso ao conhecimento.
Mas é a educação que ajuda a transformar conhecimento em consciência.
Talvez seja necessário ampliar nossa própria definição de autocuidado.
A OMS define atualmente o autocuidado como a capacidade de indivíduos, famílias e comunidades promoverem e manterem sua saúde, prevenirem doenças e lidarem com situações relacionadas à saúde, com ou sem o apoio de profissionais de saúde.
Essa definição amplia significativamente a discussão.
Autocuidado também pode significar:
Quando aprendemos, ampliamos nossa capacidade de compreender o mundo e de agir sobre ele.
E quando ampliamos nossa capacidade de agir, ampliamos nossa autonomia.
A educação também possui uma dimensão coletiva.
Quando uma pessoa aprende, o impacto não precisa terminar nela.
Conhecimento compartilhado transforma-se em conexão.
Conexão transforma-se em comunidade.
E comunidades que compartilham conhecimento possuem maior capacidade de criar soluções, apoiar seus membros e enfrentar desafios.
A OMS reconhece que a literacia em saúde contribui não apenas para decisões individuais, mas também para a participação das pessoas em ações coletivas de promoção da saúde.
Isso significa que educação não deve ser pensada apenas como responsabilidade individual.
É também uma responsabilidade social.
Famílias, escolas, organizações, empresas, comunidades, governos e instituições de saúde possuem papéis importantes na criação de ambientes que favoreçam o acesso ao conhecimento e a tomada de decisões conscientes.
A educação pode ser uma dessas pontes.
Uma ponte entre ciência e sociedade.
Entre conhecimento e prática.
Entre informação e decisão.
Entre desenvolvimento e autonomia.
Entre o indivíduo e a comunidade.
Talvez precisemos fazer uma pergunta diferente.
Em vez de perguntar apenas:
“Como posso cuidar melhor de mim?”
podemos também perguntar:
Essa mudança de perspectiva é poderosa.
Pode ser necessário aprender sobre saúde.
Sobre alimentação.
Sobre emoções.
Sobre comunicação.
Sobre tecnologia.
Sobre direitos.
Sobre relações.
Sobre uma nova cultura.
Ou simplesmente sobre nós mesmos.
Porque aprender não significa apenas acumular conhecimento.
E quando a educação amplia possibilidades, ela pode transformar vidas.
A educação que transforma não termina quando a aula acaba.
Ela continua quando uma pessoa utiliza aquilo que aprendeu para tomar uma decisão diferente.
Quando encontra coragem para pedir ajuda.
Quando conquista autonomia.
Quando desenvolve uma nova competência.
Quando consegue comunicar aquilo que sente.
Quando encontra uma oportunidade.
Quando passa a enxergar possibilidades onde antes via apenas limitações.
É nesse momento que educação deixa de ser apenas formação e passa a ser transformação.
Porque:
conhecimento gera consciência;
consciência fortalece a autonomia;
autonomia amplia a capacidade de escolha;
e escolhas mais conscientes podem contribuir para uma vida com mais bem-estar.
Talvez essa seja uma das pontes que precisamos construir com mais urgência:
E fica uma pergunta para cada pessoa:
A proposta de aproximar educação e autocuidado não pretende substituir a atuação dos profissionais da saúde. Pelo contrário: pretende reconhecer que saúde e bem-estar são construídos também em ambientes educacionais, sociais, familiares e comunitários.
A própria OMS ressalta que políticas e ambientes favoráveis ao autocuidado dependem da participação de diferentes setores, incluindo educação, justiça e serviços sociais, e que a literacia em saúde constitui uma base para que as pessoas participem ativamente da promoção de sua saúde.
Nesse sentido, pensar educação como uma dimensão do autocuidado é também reconhecer que autonomia não nasce apenas do acesso a serviços, mas da capacidade de compreender, questionar, escolher e agir.
Educar é, portanto, criar possibilidades.
E criar possibilidades é uma forma de cuidar.
Cleide Marinho é Administradora de formação, Educadora e Empreendedora, especialista em Gestão de Pessoas e Marketing e profissional em formação na área de Inteligência Artificial.
Sua trajetória conecta Administração, gestão de pessoas, educação, empreendedorismo, comunicação, tecnologia e desenvolvimento humano.
É fundadora da Braqui Cursos, iniciativa educacional voltada ao desenvolvimento de competências e à promoção da autonomia, especialmente junto à comunidade brasileira na Europa.
Sua atuação é marcada pela compreensão de que educação pode ser uma ferramenta de transformação, autonomia, pertencimento e desenvolvimento humano.
No Fórum Internacional SABE, apresenta a reflexão “Educação que Transforma: aprender também é uma forma de cuidar de si”, conectando educação, conhecimento, autonomia, autocuidado e bem-estar.
“Conhecimento gera consciência. Consciência fortalece a autonomia. E autonomia amplia nossa capacidade de cuidar de nós mesmos e de construir uma vida com mais possibilidades.”
Referências bibliográficas
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